8 de novembro de 2009

Regresso ao blog

De regresso ao meu blog, reparo que já desde finais de Julho que não escrevo nada nele. Que estranho! Não é por nada ter de relevante para falar, bem pelo contrário, há motivos de sobra. Ao invés, tenho vivido mais nestes últimos tempos do que no resto da minha vida e, por isso, precisava de pôr as minhas coisas em ordem. Até chegar aqui, claro.

Eu percebo agora que dou os primeiros passos para sair da encruzilhada em que me encontrava. Por um lado, a minha baixa auto-estima que fez com que, durante muito tempo, me sentisse de certa forma inferior aos meus pares. Por outro, a frustração e a incerteza quanto ao facto de poder vir a amar alguém novamente.

Creio que estes sentimentos devem corresponder exactamente àqueles que muitos sentem e que levam a sérios problemas, tais como dependência do álcool, drogas ou mesmo suicídio. Porém, eu seria incapaz de pôr termo à minha vida, mesmo que todo o meu mundo ruísse, hipoteticamente falando. As recordações das amarguras fazem-me sentir vivo, real, complexo, e não uma personagem de um qualquer romance fictício. Fazem-me amadurecer enquanto pessoa, equipando-me com as ferramentas necessárias para abordar quer o presente quer o futuro com maior coragem e determinação.

Sei, porém, que o caminho que trilho não é fácil. Tenho de ser persistente e lutar por aquilo que é importante para mim. E, acima de tudo, não deitar a toalha ao chão, como já me apeteceu fazer em certas ocasiões.

“Hope, it is the quintessential human delusion, simultaneously the source of your greatest strength, and your greatest weakness” (Is it?)

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20 de julho de 2009

Há momentos

Há dias felizes? Não.
Há momentos felizes? Também não.

Há momentos em que se apodera de nós
a ilusão naive de que tudo irá correr bem,
de que nada nem ninguém nos pode afectar,
de que podemos ser felizes para sempre.

Ao som da Garota de Ipanema do Jobim,
conduzimos sem pressas em direcção à cidade,
para fazermos tudo ou talvez coisa nenhuma.

Vamos a um bar, encontramos alguns amigos,
e conversamos enquanto saboreamos um fino,
e temos tempo para tudo, porque somos imortais,
miúdos perdidos no meio da Terra do Nunca.

E depois temos os outros...



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22 de junho de 2009

Vermelhas eram as rosas

Vermelhas eram as rosas, meu amor
E longa era a carta de despedida.

Palavras de saudade e de dor,
Fragmentos de uma vida perdida

Negras foram as horas de amargura
Deixas-me para sempre, eu sei.

Do retrato,apenas restou a moldura
A nossa fotografia te deixei.

Brilhantes são tuas lágrimas agora
Chegou o momento de partir.

Imploro para que não vás embora
Em silêncio, pois sei que tens de ir.



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20 de junho de 2009

Escrever ou não escrever

Tenho sentido ultimamente dificuldades em escrever. É o que neste momento me vem à cabeça, consciente quer da realidade da situação quer do aparente paradoxo que esta frase poderá encerrar depois de escrever este texto. Bem, talvez seja melhor colocar as coisas desta forma: "Tenho sentido ultimamente dificuldades em escrever sobre assuntos que sejam relevantes para mim".
(...) Pausa de 5 minutos, para aclarar as ideias (...)
Talvez precise de parar de escrever. Parar um tempo. Mais do que cinco minutos. Mais do que uma hora. Mais do que um mês. O tempo suficiente para que possa voltar a sentir o que escrevo, que sou eu quem escrevo e que escrevo o que sinto. Para ter a certeza que não vivo mais pela escrita do que pela realidade. Para saber que realmente existo.
Ou talvez precise de escrever mais. Para aperfeiçoar a escrita, para a tornar cada vez mais pura e expressiva. Para que as palavras fluam mais facilmente, sem quaisquer dissonâncias. Para puder ter o meu Universo alternativo, uma evasão à realidade triste e deprimente que é a minha vida neste momento. Como diria Shakespeare numa situação semelhante: "Escrever ou não escrever, eis a questão."
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12 de junho de 2009

Worrisome Heart

por Melody Gardot


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10 de junho de 2009

Memórias

Houve uma altura, quando eu era mais novo, em que escrevia um diário das viagens que fazia.
Acho que, para começar cada viagem, eu escrevia sempre isto: "Levantámo-nos às 7.10h. Tomámos o pequeno-almoço, fizemos as malas, e dirigimo-nos para o Aeroporto de Sá Carneiro, no Porto." Depois, relatava os aspectos mais importantes de cada viagem, os hotéis em que ficámos, os museus, os monumentos, os episódios interessantes, num estilo que hoje me parece demasiado simples e restrito aos factos, mas natural devido à idade.
Algumas dessas viagens ficarão em mim gravadas para todo o sempre. Doutras, porém, já não tenho grandes recordações. Sei que estive em determinados lugares, tenho uma ou outra imagem na memória, mas não me consigo lembrar de tudo. São apenas fragmentos, mas que despertam em mim uma profunda curiosidade. É então que vou buscar o meu diário.
Folheio-o, até que chego a uma data "5 de Agosto de 1999". Dez anos atrás.

99.08.05 - Viagem à China
"Fomos ver a Praça de Tiananmen e o Palácio de Verão. Os dois lugares são maravilhosos e muito encantadores, principalmente o Palácio de Verão, com os seus jardins magníficos, o seu corredor (o maior do mundo) e a sua paisagem maravilhosa.
Visitámos também o Palácio Imperial, conhecido como a "Cidade Proíbida". Dentro desta cidade vivia o imperador. Lá visitámos a sala dos relógios com relógios magníficos. Diz-se que o último imperador da dinastia Qing fugiu quando a China foi atacada por japoneses.
Quando acabámos de ver a Cidade Proibida, fomos jantar a um restaurante local, onde comemos uma especialidade de Pequim -o pato lacado. Regressámos ao hotel."

Dez anos atrás...

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9 de junho de 2009

O café do Sr. Alfredo

- Bom dia, senhor Alfredo! - cumprimentei eu.
- Bom dia, Pedro! - devolveu ele com um sorriso - Confiante para o jogo de logo?
- Claro, senhor Alfredo - respondi eu e encolhi os ombros, numa atitude de falsa modéstia - Com o Porto, não há hipótese...
- Pois não. - respondeu ele - O que é que vais querer?
- Queria uma torrada e uma meia-de-leite, por favor - pedi-lhe eu.
- É para já - respondeu-me o senhor e regressou ao balcão.
O senhor Alfredo era empregado num café da rua da Constituição, com o qual tinha uma relação de empatia e respeito. É um indivíduo de meia-idade, de baixa estatura, forte constituição, cabelo grisalho e olhos castanhos.
A afinidade clubística, revelada em conversas interessantes das várias vezes que tinha ido ao café, foi o ponto de partida para a nossa relação. Os temas das nossas conversas eram porém mais amplos do que o incontornável tema do F.C. Porto: a actualidade política nacional e internacional, o estado da economia, o desporto em geral, algumas notícias relevadoras (eufemismo para fofoquices) que apareciam nas revistas...
O senhor Alfredo é uma pessoa extremamente trabalhadora. Não sendo letrado, é dotado de uma inteligência e perspicácia extraordinárias. Sabe ouvir o que os outros tinham para dizer, e de dar uma palavra amiga quando necessário.
Desde que me lembro, o café do Sr. Alfredo esteve sempre aberto, excepto nos feriados.
Hoje, passei pelo café, e o café estava fechado. Na porta, apenas um aviso: "PASSA-SE..."
Sinais da crise, certamente.
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1 de junho de 2009

Clair de Lune

A meados do mês de Abril de 2003, por ocasião do meu aniversário, ofereceram-se uma colectânea de música clássica dos mais importantes compositores de todos os tempos: Mozart, Bach, Chopin, Beethoven, entre outros. Quando a recebi, agradeci educadamente, mas pensei para mim próprio que a daria à minha mãe, que apreciava mais essa música do que eu, por altura do seu aniversário. Ou no Dia da Mãe. Guardei a colectânea no armário, e não voltei a pegar nela.
Há dois anos atrás, andava eu a vasculhar as minhas coisas, e encontrei-a. Abri a caixa com a colectânea - ao todo eram 40 CDs - e procurei um para ouvir. Na lombada de um dos CDs encontrei um nome – Claude Debussy. O nome não me era estranho. Tinha-o ouvido numa das aulas de formação musical. Era um compositor francês do início do século XX. Um modernista. Coloquei o CD na aparelhagem de som de minha casa, uma velhinha mas competente Technics, sentei-me no sofá e comecei a ouvir. Foi quando conheci “Clair de Lune”.
“Clair de Lune” é uma peça para piano escrita por Claude Debussy em 1890, o 3º movimento da suite Bergamasque, feita a pensar no poema com o mesmo nome de Paul Verlaine, que na língua de Camões, seria algo como isto:

“A vossa alma é uma paisagem escolhida,
Onde vão encantando máscaras e bergamascas
Tocando alaúde e dançando, e quase
Tristes sob os seus disfarces fantasiosos.

Enquanto cantam em modo menor
O amor vencedor e a vida oportuna,
Não têm o ar de crer na sua felicidade
E a sua canção mistura-se com o luar,

Com o calmo luar triste e belo
Que faz sonhar os pássaros nas árvores,
E soluçar de êxtase os jactos de água,
Os grandes jactos de água esbeltos entre os mármores.”

Acho que as palavras e a música falam por si…



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Falta-me a rima e a métrica



Falta-me a rima e a métrica,
A Beleza e a Vida em verso,

O corpo e a alma poética,
Numa palavra, o Universo.

Sobra sonho, falta talento,
É Minerva que se afasta,

Fico sem rumo nem alento,
Sozinho na escuridão nefasta.


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26 de abril de 2009

Duas pessoas, dois destinos


Duas pessoas aguardam sentadas
a chegada do comboio das nove.

A rapariga de xaile azul traz consigo
uma velha mala com as suas coisas.

O silêncio, o olhar triste e pensativo,
a certeza de que tudo chegou ao fim.

Olha para o relógio, faltam dois minutos,
apanhar o comboio e não mais voltar.

O comboio das nove chega à estação.
A rapariga levanta-se e pega na sua mala.

Abraça-me, beija-me e diz-me adeus.

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6 de abril de 2009

Um momento

A senhora de mala vermelha conversa
Com outra enquanto observa as montras.

Um velho mendigo pede uma esmola
Para sobreviver sem fome mais um dia.

Um estudante caminha em direcção
À sua escola, ouvindo absorto o seu iPod.

Uma criança brinca alegremente na rua
Com uma bola azul que o seu pai lhe deu.

E o tempo parece parar, enquanto
tudo observo da esplanada do café.

E apercebo-me de que penso em ti…

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Clandestino



A noite vinha fria
negras sombras a rondavam
Era meia-noite
e o meu amor tardava...
A nossa casa, a nossa vida,
foi de novo revirada
À meia-noite
o meu amor não estava.
Ai, eu não sei onde ele está,
se à nossa casa voltará
foi esse o nosso compromisso
E, acaso nos tocar o azar,
o combinado é não esperar
que o nosso amor é clandestino

Com o bebé, escondida,
quis lá eu saber, esperei.
Era meia-noite
e o meu amor tardava...
E, arranhada pelas silvas,
sei lá eu o que desejei...
Não voltar nunca,
amantes, outra casa!
E quando ele, por fim, chegou,
trazia as flores que apanhou
e um brinquedo pró menino.
E quando a guarda apontou
fui eu quem o abraçou!

O nosso amor é clandestino

por Deolinda

As luzes e as sombras

As luzes e as sombras, a cidade
As pessoas que atravessam as ruas.

O som distante de um acordeão
De um fado por outrém cantado.

Oiço o crocitar das gaivotas:
Aproxima-se uma tempestade.

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30 de janeiro de 2009

Uma caminhada


Num dia quente de Verão, decidi fazer uma caminhada pela marginal de Vila do Conde onde habitualmente descanso. O sol ainda brilhava, embora com cada vez menos intensidade, à medida que ia descendo na abóbada celeste. Passado algum tempo, o sol escondeu-se e deu lugar à noite, à Lua e às estrelas.
O vazio. O silêncio, apenas quebrado pelo bater das ondas do mar e pelos lamentos das gaivotas que cruzavam os céus. A tranquilidade que outrora predominava na marginal, mas que tinha sido substituída pela imparável vida citadina. A maresia que o vento trazia, evocando em mim fragmentos de histórias há muito esquecidas, no tempo em que os Deuses habitavam a Terra, embelezando todos os recantos com a sua magia. A solidão, afinal tão negativa quanto pensava, o que é mau é o desespero, esse dilacera a alma. A saudade, da minha infância, do tempo em que era feliz, vivendo na ignorância de não conhecer nem a guerra, nem a tristeza, nem o sofrimento, todos os ideais de que o Homem tão orgulhosamente fala afinal submetidos a um mais persuasivo, o poder e o dinheiro...
O vento afasta-se e novamente o vazio, ele mesmo carregado de significações metafísicas tão importantes e tão profundas, que remontam à origem do Universo, mas que não consigo descobrir. O silêncio...

21 de janeiro de 2009

A Poesia dos Sentidos


De grande fiabilidade,
são dádivas da Natureza,
emprestando à vida beleza,
captando a realidade.

Através dos sentidos,
a vida ganha novas cores,
e cheiros e sabores,
adquire novos motivos.

São eles que mostram
a beleza e a verdade,
a complexa realidade,
em tudo o que captam.

Não podemos viver
isolados do que existe.
Sem eles nada subsiste.
O que poderíamos ter?




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12 de janeiro de 2009

A cidade

Hoje, dia 12 de Janeiro de 2009, faço o percurso habitual que me leva à Universidade. Todos os dias passo por aquele local, sempre em grande azáfama. Hoje, porém, é ainda cedo, e por isso posso vaguear com mais calma, apreciando a cidade em pormenor.
Os primeiros raios de sol incidem sobre os prédios da Baixa portuense. A cidade começa a despertar sentindo-se já o fervilhar das actividades do dia-a-dia. Um vento fresco, mas agradável, faz agitar as árvores do Jardim da Cordoaria. Ao longe, a Torre dos Clérigos, um importante ex-libris da cidade.
Paro e observo tudo o que me rodeia. Tento captar tudo o que vejo, até o mais ínfimo detalhe, para que tudo permaneça na minha memória imutável com o passar dos tempos.
Contudo, apodera-se de mim uma sensação estranha, um misto de alegria e tristeza, de incompreensível saudade. Dou por mim a recordar alguns momentos que vivi em criança ali mesmo e de como a olhava com um enorme espanto e admiração, habituado que estava a viver longe da imparável vida citadina. Na altura era um mundo diferente e, por isso, era com verdadeira curiosidade que o descobria…
Hoje, conheço bem melhor a cidade, mas de certa forma ainda é assim que a vejo. Dá-me vontade de percorrer as suas ruas, de passear pela Ribeira, pela Foz, por Serralves, pelo Parque da Cidade... Recordo o Porto Sentido do Rui Veloso e apercebo-me que embora as palavras sejam diferentes, o sentimento é o mesmo...




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8 de janeiro de 2009

O meu manifesto contra a situação política actual

Não me venham com falinhas mansas,
com subtilezas e truques de magia,
que apenas enganam um idiota chapado,
ou então alguém que deseje ser enganado,
já disse e voltarei a repetir se necessário: “Basta!”
Basta de políticos corruptos, que não cumprem
O que prometem e ainda se sentem satisfeitos,
Que saem de cargos políticos e vão para tachos,
Que vivem à bordaleza em tempo de miséria!
Basta de conformismo!
Basta de dizer que a culpa da situação ser má
é dos funcionários públicos, dos operários e
dos governos de há não-sei-quantos-anos!
Se calhar ainda culpam o Afonso Henriques,
que num momento de pura diarreia mental,
lembrou-se de tornar Portugal independente!
Ou D. Sebastião, que desapareceu para os lados
de Alcácer-Quibir, mas que ainda não apareceu
numa manhã de nevoeiro para salvar a Cena!
E não me digam, por amor de Deus,
dos Morangos e da Floribela (a trilogia sagrada)
que é preciso falar verdade, quando enganar as massas
é a vossa arma favorita! É preciso ter lata!
E depois querem o Zé a ir votar nas eleições,
A meter uma cruz no vosso quadrado!
Querem que o povo exerça o seu dever nas eleições?
Demonstrem que estão cá para servir o país
E não para servir os vossos interesses.
Provem por A+B que não estão implicados
em quaisquer situações ilegais (improvável),
ou tenham um pingo de decência e demitam-se (desejável)!
Maquiavel já existiu um na História e já chegou.

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