29 de dezembro de 2008

A Efemeridade da Vida


A vida é efémera. Sinto-o na minha alma, nos meus ossos, na minha pele, em todo o meu corpo...
Não sou ainda velho, mas aquele sentimento maravilhoso de imortalidade que experimentei enquanto adolescente já se desvaneceu, deixando lugar apenas ao abismo intransponível que é a realidade.
Uma pessoa que me é muito querida sofreu um episódio agudo de doença. "Um AVC no hemisfério esquerdo do cérebro", afirmou o médco do Hospital de São Sebastião, em Santa Maria da Feira, onde essa pessoa estava hospitalizada.
Deveria estar melhor preparado para uma situação como aquela? Certamente, dado a idade avançada e os problemas crónicos de saúde que essa pessoa tinha. Diabetes, hipertensão, colesterol, enfim, toda uma panóplia de doenças crónicas que já afectavam essa pessoa há muito tempo. Mas a verdade é que não estava...
Eu sabia que a situação era grave, mas o médico, apercebendo-se da minha preocupação, procurou aliviá-la. "Ela está em coma medicamente induzido, mas estamos convencidos que ela irá recuperar. Tenha calma.
Uma semana depois, o derrame cerebral tinha diminuido significativamente, mas ainda não registava melhoras. Eu já temia o pior, mas passado dois dias, finalmente saiu do coma, ainda muito debilitada, incapaz de pronunciar uma palavra...
Foi transferida da Urgência para a Unidade de Cuidados Intensivos e volvida uma semana, para uma Unidade de Cuidados Continuados, onde passou a fazer fisioterapia todos os dias e terapia da fala uma vez por semana.
Infelizmente, a fisioterapia e a terapia da fala não estão a ter o efeito desejado. Continua sem falar, emitindo apenas alguns sons guturais. Não consegue ainda movimentar braço e perna direitos. Os médicos afirmam que pode haver alguma recuperção, mas que será lenta, dependendo da própria paciente.
Há duas semanas atrás, fui visitá-la à Unidade de Cuidados Continuados. Quando entrei no quarto, vi-a acordada, sentada numa cadeira de rodas, olhando para a enfermeira, que estava a verificar as tensões e a glicémia. "Os seus níveis estão bastante bem", anunciou. Fui ter com ela, chamei-a, ela olhou para mim e sorriu. Não foi um sorriso falso nem triste, mas um sorriso de alegria. Ela reconhecia-me!
"A capacidade de reconhecer pessoas não está afectada", disse a enfermeira, "mas ainda não consegue identificar objectos pelo nome e é provavel que não perceba muitas das coisas que se lhe diz".
Eu sentei-me numa cadeira junto a ela, e assim fiquei uma, duas horas, dando-lhe carinho, tentando falar com ela, animando-a, dando-lhe esperança...
Acometeu-se-me um desejo de ali permanecer muito tempo, talvez eternamente. Olhar fixamente para aqueles olhos cor de jade, acariciar aquela pele sulcada pelas rugas próprias da idade, aquele rosto sereno... Mas sabia que não podia ficar lá mais tempo.
Despedi-me dela e com o coração apertado, abandonei o quarto e regressei a casa.
A vida é efémera, sei-o bem. Há que aproveitá-la, gozá-la, ser feliz. Bem talvez isto pareça um cliché, mas isso é o que sinto.
Carpe Diem, diria Epicuro
E diria muito bem.

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15 de dezembro de 2008

Amor

Fogo intenso que aquece,
e envolve o meu ser,
O amor, quando aparece,
A dor faz desaparecer.

Surge a esperança
a quem a já não possuía.
Volto a ter confiança
e uma maior alegria.

Nos lábios um sorriso,
na mente a irrealidade,
e subo mais um piso,
mais perto da felicidade.

Mas até quando irá durar
esta etapa maravilhosa?
Será que quando acabar
virá nova fase dolorosa?

Será esse o meu destino,
a ser infeliz estar fadado,
em constante desatino,
sem nada ter conquistado?

Ou será que o passado
não foi mais do que um sinal
A sorte terá então mudado,
existirá a Felicidade afinal?

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21 de novembro de 2008

A "Arte das Musas"

Estou sentado na minha secretária, relaxando um pouco antes de regressar ao trabalho. De olhos fechados, deixo-me levar pela música que ouço através dos headphones. À minha volta, o ambiente é calmo e silencioso. Estou sozinho comigo mesmo, algo que raramente acontece: sem telemóvel, sem computador, sem livros, sem pessoas… Somente eu e a música…
Vou ouvindo Miles Davis, John Coltraine, Stan Getz, Dizzie Gillespie, grandes nomes da música de todos os tempos que são apenas vagamente conhecidos pelo vulgo, e praticamente desconhecidos para as pessoas da minha idade…
É engraçado como apesar de vivermos na chamada “sociedade de informação”, a ignorância relativamente a vários aspectos da cultura universal é cada vez maior…
Hoje em dia, a indústria musical é poderosíssima e impõe um modelo capitalista a todos os que tentam ser bem sucedidos nesta área: não é preciso produzir boa música, basta que a música venda muito.
Como é óbvio, infelizmente, tem-se vindo a assistir a uma diminuição progressiva da qualidade musical. A falta de imaginação que grassa leva a que a maioria das músicas actuais sejam ridiculamente simples, muito semelhantes umas às outras, com letras pouco imaginativas e por vezes desprovidas de sentido.
Para mim, uma música deve ter algo que me arrepie, que faça mexer comigo… Um breve momento de magia, misterioso e belo, que se desvanece quase imediatamente, dando lugar a outro, num encadeamento perfeito…
Não me interessa se é rock, blues, jazz, fado, alternativa ou até mesmo música clássica: a expressão musical deve ser algo que venha de dentro: é preciso sentir algo, mas também é preciso saber exprimi-lo de forma eloquente, e isso exige esforço e talento...
Perante a mediocridade existente no panorama musical, sinto necessidade de recordar temas antigos, de épocas em que embora já houvesse necessidade de vender discos, a música tinha também como objectivo expressar alguns sentimentos, emoções e atitudes do músico, contagiando o público com a sua arte...
Quando a música era a verdadeira "Arte das Musas"...

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15 de novembro de 2008

O início de uma nova Era

o dia em que te conheci,
quero agora recordar,
o resto irá desaparecer,
para nunca mais me lembrar
dos tempos negros que vivi,
em que a solidação apertava
e que o desespero aumentava,
não conseguia ser feliz,
depois tu apareceste, envolta
num manto de mil cores,
impregnado de suaves odores...
novo rumo deste à minha vida,
monótona e triste que era,
encetaste em mim uma nova Era.

1 de novembro de 2008

Realidade ou sonho?


Amei-te naquele dia em que te vi,
caminhando pela rua serenamente,
o teu cabelo brilhando ao sol nascente,
Os olhos em que desesperadamente me perdi.

O teu rosto transparecia calma
O teu porte, elegância e suavidade
O teu sorriso, a tua personalidade...
Só tu alegravas a minh'alma,

E tudo subitamente desapareceu
O teu rosto, porte e sorriso [e pensei...
Teria sem querer entrado no paraíso.
Ou teria sido apenas um sonho meu?



Pintura a óleo: "Mulher Burguesa", de Abel Salazar

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31 de outubro de 2008

Hasta siempre, Comandante!



É dificil falar de alguém sem nunca o ter conhecido. Ainda mais se essa pessoa viveu uma época completamente diferente. Mas é impossível não falar de quem me marcou profundamente pela sua dedicação à justiça e igualdade sociais.
Falo de Ernesto Guevara, ou mais simplesmente el "Che", como carinhosamente os cubanos se lhe referem.


Ávido leitor e conhecedor da filosofia marxista-leninista, Ernesto Guevara era estudante na faculdade de medicina na Universidade de Buenos Aires, Argentina, quando pouco antes de terminar o seu curso, decide partir numa viagem com seu amigo Alberto Granado pela América do Sul. No decurso das suas viagens, visita minas de cobre, populações indígenas, leprosários, e apercebe-se da extrema pobreza em que a grande maioria dos sul-americanos vivia. Perante toda esta situação, compreende que só uma mudança do panorama político mundial (dominado pelos Estados Unidos) poderia amenizar aquela terrível tragédia humana.
Com Fidel Castro e um grupo de activistas políticos, decide organizar um movimento que tinha como principal objectivo a libertação de presos políticos em Cuba, movimento esse que falhou, obrigando-os a refugiarem-se nas montanhas de onde iniciam uma luta contra o presidente cubano Fulgencio Batista, que era apoiado pelos Estados Unidos. Nas montanhas ganham poder, recrutando muitos camponeses, intelectuais e trabalhadores urbanos. Luta contra o imperialismo americano, que utiliza Cuba como um autêntico bordel, desprezando a população local.
Finalmente, Batista é derrotado, e é instaurado novo regime socialista, liderado por Fidel Castro, com Che como um dos principais líderes do regime.
Che parte para o Congo uns anos mais tarde, tentando espalhar a causa comunista pelo mundo, mas sem sucesso por falta de apoios.
Regressa a América do Sul com esse mesmo objectivo, mas não é igualmente bem sucedido, acabando por ser assassinado na Bolívia pelas milícias locais.
Apenas trinta anos mais tarde o corpo foi descoberto e Che teve direito a um funeral condigno. Foi feito um memorial a Che Guevara, na cidade de Santa Clara, que felizmente já tive o prazer de visitar no ano passado.
Após a sua morte, as proezas de Che não foram esquecidas. A sua experiencia enquanto médico e a sua vida de guerrilheiro tornaram-se lendárias.
Ainda que compreenda que um regime verdadeiramente comunista seja impossível de implantar, admiro a coragem de quem é capaz de lutar por aquilo em que acredita.
Hasta siempre, Comandante!

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24 de outubro de 2008

À procura da felicidade


Eu quereria conquistar palavras para dizer o que sinto, o que me vai na alma… mas a outra parte de mim reprime os meus pensamentos, fechando-os numa cave escura e profunda.
Vagueio pelas ruas, sem objectivo ou rumo definido. As ruas parecem-me todas tristes, sombrias, sendo impossíveis de distinguir. Sou levado pelo vento, como as folhas numa manhã de Outono. Por vezes, sinto-me triste, melancólico, sem vontade de viver. Porém, hoje, nada sinto, nem alegria ou tristeza ou sequer aborrecimento.
Hoje, apenas e só vivo. Não recordo o passado, nem faço planos para o futuro. Vivo o presente da melhor maneira possível.
De um devaneio, surgem vários sentimentos contraditórios: a alegria de viver, a tristeza por não ser feliz, o amor que nutro por quem me ama, o ódio por quem me despreza. Tudo se resume a uma mistura escura, compacta, da qual não encontro saída.
Por vezes pergunto-me: porque é que algo triste me acontece sempre? Não terei eu talvez a possibilidade, mesmo que remota, de ser feliz?
Felizmente, sei que não me encontro sozinho neste beco sem saída. Não encontro a luz ao fundo do túnel. Mesmo assim, procuro-a ardentemente, esperando encontrá-la. Encontrar a felicidade.

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Pensamentos epicuristas

Digo que tenho um lar,
uma família, um espaço,
ninguém mos pode tirar,
sou livre no que faço,
mas afinal o que é meu?
A vida muda rapidamente,
o que é já desapareceu
nada resta, senão a mente,
que é prisioneira do corpo,
só se libertando quando a
morte derradeira mostra
todo o seu encanto ...
Será que vale a pena
lutar contra o destino
se ele já me acena
com um sorriso cínico?
a minha resposta é não.
O melhor a fazer é viver
sem grande preocupação,
evitando a dor de perder.
O tempo vai passando
e vou vivendo com a vida,
apenas do destino a mando,
à tristeza não dando guarida.
Porque afinal tudo é nada
e o nada é tudo também
a vida é uma emboscada
para quem pensa que tudo tém.

A verdadeira identidade


Tento descobrir a minha identidade
Mas não a consigo encontrar.
Tudo se esconde atrás da máscara
que o dia-a-dia ajuda a criar

Máscara essa que esconde um desejo
secreto ou um sentimento profundo
Em tudo o que faço, ouço ou vejo,
Existe de pensamentos um mundo

Lugar deveras sombrio, a mente
Onde habitam os piores receios
Bem como sonhos ou devaneios
De quem vive em sofrimento

Destruir esta máscara anseio,
porque oculta a realidade [sobre
a minha verdadeira identidade.